Portal da Reumatologia

Por: Dra. Marcella Mello

Sou médica reumatologista, com residência médica pela Santa Casa de Belo Horizonte e Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Reumatologia. Meu objetivo é trazer conteúdo relevante e preciso a cerca da Reumatologia. Meu compromisso é com seu entendimento sobre o assunto de uma forma leve e clara.
CRM: 71401-MG RQE Nº: 50241

GOTA

O QUE É A GOTA (ARTRITE GOTOSA)?

A gota é uma artropatia inflamatória desencadeada pela cristalização de urato monossódico nas articulações e nos tecidos periarticulares. Ela acontece pela elevação crônica do ácido úrico no plasma, além do seu ponto de saturação. É uma doença comum, mais prevalente no sexo masculino, e que vem aumentando sua incidência a cada ano.

 

É caracterizada por ataques súbitos e graves de dor, inchaço, vermelhidão e sensibilidade em uma ou mais articulações, sendo muito comuns tais manifestações no dedão do pé.

 

Um ataque de gota pode acontecer de repente e muitas vezes é relatado como uma sensação inicial de que o dedão está quente. Além de sentir um aumento de temperatura na articulação afetada, o inchaço da região também é comum.

FATORES DE RISCO

A inflamação das articulações no caso de gota é devido ao depósito de microcristais de um sal de ácido úrico. A formação desses cristais requer níveis de ácido úrico no sangue elevado que é conhecida como hiperuricemia.

 

A hiperuricemia é o principal fator de risco. Além disso, a gota é mais prevalente homens e aumenta o risco com o envelhecimento. Também existem fatores genéticos associados ao desenvolvimento da doença, como história familiar positiva em até 40% dos casos.

 

Questões relacionadas à dieta, como ingestão de álcool, carne vermelha, frutos do mar, bebidas açucaradas e ricas em frutose são também fatores de risco.

 

Também alguns medicamentos podem contribuir, como diuréticos tiazídicos e de alça, etambutol, pirazinamida e os inibidores de calcineurina.

SINTOMAS/MANIFESTAÇÕES CLÍNICAS

Antes de desenvolver a gota, muitos pacientes ficam décadas com a dosagem de ácido úrico acima do valor considerado normal. Esse estado é conhecido como hiperuricemia assintomática. Geralmente, não é indicado o tratamento medicamentoso para esses casos. Deve-se, no entanto, orientar mudanças no estilo de vida e melhora dos hábitos alimentares.


O início dos sintomas geralmente é abrupto; sendo que, em questão de horas, a articulação deixa seu estado normal e passa a ter uma inflamação muito intensa. O paciente sente muita dor e tem dificuldades para realizar os movimentos habituais.


Como mencionado, a gota causa inflamação nas articulações, geralmente de uma única articulação, embora possa afetar mais de um de cada vez. As articulações nas quais mais frequentemente ataques de gota ocorrem são a base do dedão do pé, peito do pé, tornozelo e joelho, embora possa ocorrer em qualquer articulação.


Além disso, costuma ocorrer inchaço, vermelhidão e um aumento da temperatura da referida articulação. Esses sintomas geralmente duram um semana e, posteriormente, tendem a desaparecer.


É frequente que os pacientes que apresentaram um episódio de artrite gotosa tenham mais episódios futuros se não receberem o tratamento adequado.


A gota é composta por, basicamente, 3 fases:


  • Crise aguda de gota: O pico ocorre em homens entre 40 e 60 anos. A primeira crie geralmente tem início agudo, com uma monoartrite na 1ª metatarso falangeana (podagra), ou outra articulação dos membros inferiores. A dor é intensa, pior durante a madrugada e o paciente apresenta restrição de movimentos e hipersensibilidade ao toque. Ao exame clínico, é percebido edema, calor, rubor, pele brilhante e tensa.
  • Período intercrítico: É um período “livre” de crises, separando os episódios de gota aguda. Com o passar dos anos, esse período torna-se cada vez mais curto, com ataques mais recorrentes, intensos e prolongados.
  • Gota tofácea crônica: Dor persistente, menos intensa, intercalada com períodos de agudização cada vez mais frequentes. Pode haver sinovite crônica, doença poliarticular, deformidades e incapacidade. Ocorre a formação de TOFOS, que são coleções organizadas de cristais de monourato de sódio e são patognomônicos para gota.


Em resumo, pode-se dizer que os sintomas mais comuns são:


Dor forte nas articulações

A gota geralmente se manifesta primeiro no dedão do pé, mas pode ocorrer em outras articulações, como tornozelos, joelhos, cotovelos, pulsos e dedos. Geralmente, a dor tende a ser mais intensa entre quatro e 12 horas após o início dos sintomas.


Inchaço e vermelhidão

Além da dor, as articulações afetadas ficam inchadas, sensíveis, quentes e vermelhas.


Desconforto persistente

Depois que a dor mais intensa passa, pode permanecer algum desconforto nas articulações, que pode durar alguns dias ou semanas. Os ataques posteriores tendem a durar mais tempo e afetar mais as articulações.


Fig. 1: Gota tofácea inflamada

Fonte: Uptodate  2021


Fig. 2: Podagra 

Fonte: Google imagens 


DIAGNÓSTICO

O diagnóstico da gota é dado através da história clínica do paciente, alterações ao exame físico e laboratoriais e, sempre que possível, com a análise do líquido sinovial (uma secreção das cavidades articulares e bainhas dos tendões).

 

Geralmente há hiperuricemia, elevação de provas inflamatórias e leucocitose. O líquido sinovial é tipicamente inflamatório, com viscosidade reduzida, predomínio de polimorfonucleares e com a presença de cristais de monourato de sódio com BIRREFRINGÊNCIA NEGATIVA FORTE.

 

Exames de imagem, como radiografia convencional, ultrassonagrafia com doppler e tomografia também podem auxiliar no diagnóstico.

TRATAMENTO

Em primeiro lugar, cabe destacar que, embora no início os ataques de gota ocorrem geralmente espaçados uns dos outros, sem tratamento adequado podem tornar-se mais frequente, afetar novas articulações sendo que várias delas podem ficar inflamadas por mais tempo, tornando-se, assim, algo persistente.

 

Atualmente existem muitos tratamentos eficazes que ajudam a resolver a inflamação rapidamente. Quando indicado, o tratamento deve englobar a educação do paciente, mudanças de hábitos de vida, adequação da dieta e uso de medicamentos.

 

Para melhora das crises agudas, anti-inflamatórios, colchicina e corticoides são boas opções, a depender do paciente. Para redução dos níveis de ácido úrico, a medicação mais amplamente utilizada é o Alopurinol.

 

A princípio, o tratamento tem duas partes importantes:

 

1. Prevenção aos ataques agudos de gota

 

Os ataques agudos de gota são muito dolorosos e, em um primeiro momento, o tratamento visa diminuir a inflamação. Para isso, anti-inflamatórios, colchicina e corticoides são geralmente receitados.

 

Além disso, o repouso da articulação afetada e a aplicação de compressas frias podem ajudar a aliviar os sintomas.

 

O reumatologista decidirá qual tratamento é mais adequado para cada paciente com base no histórico médico e a intensidade do ataque agudo.

 

2. Diminuir os níveis de ácido úrico no sangue para evitar seu depósito nas articulações e os ataques de gota

 

Como mencionado, o tratamento também deve incluir uma reeducação do paciente. Sendo assim, a dieta deve ser equilibrada e a ingestão de proteína animal em excesso deve ser evitada. O consumo de açúcares refinados e álcool também deverão ser reduzidos. Se o paciente estiver acima do peso, também terá que controlá-lo.

 

Por outro lado, no que diz respeito ao tratamento da gota com medicamentos,  alopurinol, febuxostate ou benzobromarona podem efetivamente ajudar a reduzir os níveis de ácido úrico no sangue e, assim, permitir a dissolução de cristais de urato nas articulações.

 

O controle adequado do ácido úrico no sangue reduz os ataques a longo prazo, embora alguns ainda possam aparecer no início do tratamento. Portanto, é de suma importância o acompanhamento de um profissional. Para maiores detalhes, consulte seu reumatologista ou nos envie um email.

DIETA ADEQUADA PARA PESSOAS COM GOTA

Uma alimentação saudável é parte importante no tratamento de pessoas com gota. Nesse sentido, alguns alimentos deverão ser evitados, enquanto outros podem ser incluídos na dieta para melhorar a qualidade de vida da pessoa.

 

Em primeiro lugar, pacientes com gota devem evitar o consumo de bebidas alcoólicas. O álcool é um gatilho para os ataques. A cerveja é especialmente ruim para a gota, pois também possui purinas.

 

As purinas são compostos que, depois de metabolizados, formam o ácido úrico. É recomendável que os alimentos ricos em purinas sejam evitados.

 

Nessa lista constam anchovas, espargos órgãos de animais (cérebros, moelas, fígados e rins), feijão e ervilhas secas, cogumelos, mexilhões e peixeis, como cavala e sardinhas.

 

Além disso, as bebidas açucaradas, como refrigerantes, os alimentos açucarados e contenham xarope de milho com alto teor de frutose também devem ser limitados devido à sua associação com a gota.

 

E quais alimentos são recomendados?

 

O consumo de água é altamente recomendado para pessoas portadoras de gota. A hidratação é sumamente importante, e a meta é beber pelo menos oito copos de água por dia. A água potável pode ajudar a manter o acúmulo adequado de ácido úrico e também ajuda a removê-lo do corpo.

 

No entanto, se você sofre de retenção de líquidos devido à doença renal, converse com seu médico ou nutricionista sobre o controle de líquidos e sua relação com a gota.

 

Por outro lado, alguns alimentos, como frutas e vegetais com alto teor de vitamina C reduzem o nível de ácido úrico no sangue, o que pode afetar positivamente. Alguns exemplos de alimentos ricos em vitamina C são o brócolis, a couve, a goiaba, o caju e a laranja, entre outros.

A GOTA TEM CURA?

A gota é uma doença crônica, que não tem cura. Entretanto, é possível ficar livre de novas crises de artrite aguda fazendo uso das medicações corretas e mantendo hábitos de vida e dieta saudáveis.

CID: M 10.9

 

Livro da Sociedade Brasileira de Reumatologia. José Tupinambá Sousa Vasconcelos. 2019

Reumatologia: Diagnóstico e Tratamento. Marco Antonio P. Carvalho. 5ª edição 2019

Reumatologia. Marc C. Hochberg. 6ª edição

UpToDate 2021